Pensando imagens com Proust

“De todos os modos de produção do amor, de todos os agentes de disseminação do mal sagrado, um dos mais eficazes é esse grande torvelinho de agitação que às vezes sopra sobre nós. Então a sorte está lançada, e a criatura com quem nesse momento nos comprazemos será a criatura amada. Nem mesmo é necessário que até então nos tenha agradado mais que as outras, ou tanto como as outras. O que era preciso é que nossa inclinação por ela se tornasse exclusiva. E essa condição se realiza quando – no instante em que ela nos faltou – sentimos em nós não apenas o desejo de buscar os prazeres que seu convívio nos proporciona, mas uma necessidade angustiosa, que tem por objeto essa mesma criatura, uma necessidade absurda, que as leis deste mundo tornam impossível de satisfazer e difícil de curar – a necessidade insensata e dolorosa de possuí-la”. (Marcel Proust, No Caminho de Swann, 2009. Trad. Mario Quintana, p. 287)

 

Esse pequeno texto procura elaborar algumas reflexões sobre a imagem, através de passagens extraídas de Em busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Ao invés de valer-se de comentários e teorias alheias ao livro para analisá-lo, a proposta é pensar a partir dele contribuições ao que se pode chamar de teoria das imagens, remontando-o com outras referências pertinentes para pensá-lo e para pensar imagens.

Em A Caminho de Swann, primeiro livro de Em busca do Tempo Perdido, Proust descreve as desventuras amorosas de Swann durante um período anterior ao nascimento do narrador. Essa paixão de Swann por Odette recebe um capítulo próprio na economia da obra, Um amor de Swann.

Swann nos é primeiramente apresentado como frequentador da casa da família de Marcel, durante a infância deste em Combray. Segundo o narrador, Swann é “o autor inconsciente de minhas tristezas”, ou seja, o responsável por tormentas recorrentes que aconteceram em sua infância: a presença de Swann nos jantares familiares nos quais Marcel não podia permanecer, devido ao horário já avançado, retardava o tão esperado momento do beijo de boa noite – realizado cotidianamente por sua mãe, e sem o qual Marcel não podia dormir.

Ainda durante a rememoração de sua infância em Combray, o narrador nos conta das duas possíveis caminhadas dominicais a serem feitas: ora pelo lado dos Guermantes, ora pelo lado de Méséglise (onde Swann tinha um castelo).

De Swann, então, pouco sabemos: vem de uma família judaica convertida ao cristianismo, e é filho de um rico comerciante. Sua fineza e habilidade para transitar com facilidade pelos ambientes mais refinados se dão, em parte, pelo seu conhecimento sobre arte e sua encantadora maneira de valer-se dele para traçar comentários sobre as vivências mais comezinhas. Porém, apesar de amigo da família de Marcel, Swann é considerado alguém de reputação duvidável (sua residência sendo considerada um lugar infrequentável, onde não se deve ir), devido às suas relações com Odette de Crécy.

Sua família, porém, parecia desconhecer exatamente qual era esse passado mundano que Swann trazia consigo. Em uma linda passagem, na qual Proust concentra diferentes camadas de reflexões a serem desdobradas ao longo do livro (ou melhor, uma entre tantas outras passagens nas quais Proust amarra um nó capaz de concentrar toda uma série de fios a serem soltos pelo decorrer da narrativa), não só nos é apresentado que existe certa discrepância entre a imagem que Marcel tinha de Swann em sua infância daquela que viria a ter mais tarde, como também existe uma reflexão sobre esse movimento de discrepância entra a imagem mentalmente criada e a imagem tal como se nos apresenta pelo contato sensível mais imediato:

“Até o ato tão simples a que chamamos “ver uma pessoa conhecida” é em parte um ato intelectual. Enchemos a aparência física do ser que estamos vendo com todas as noções que temos a seu respeito e, para o aspecto total que dele nos representamos, certamente contribuem essas noções com a maior parte. Acabam por arredondar tão perfeitamente as faces, por seguir com tão perfeita aderência a linha do nariz, vêm de tal modo nuançar a sonoridade da voz, como se esta não fosse mais que um transparente invólucro, que, a cada vez que vemos aquele rosto e ouvimos aquela voz, são essas noções que olhamos e escutamos. Certamente, no Swann que minha família havia construído para si, fora omitida por ignorância uma multidão de particularidades de sua vida mundana que davam motivo para que outros, em sua presença, vissem todo o mundo de elegâncias a dominar-lhe o rosto até o nariz recurvo, que era como sua fronteira natural (idem, p. 39)”

Não apenas podemos verificar nessa passagem uma problematização da personagem de Swann – que pela primeira vez é apresentado como figura contraditória -, mas também, e talvez isso seja o que mais nos interesse aqui, essa dissonância entre a criação imaginária do outro e seu confronto com a realidade: Proust parece crer na primazia da primeira, cuja força é inclusive capaz de reconfigurar a fisicalidade do outro, de acordo com as imagens já pré-concebidas deste.

A passagem segue, e ganha maior densidade, quando passa a levar em conta outra dimensão possível dessa discrepância; dessa vez a dissonância entre dois momentos históricos distintos, acompanhada dos desencontros entre duas imagens construídas em temporalidades distintas, e a impossibilidade de sua coincidência. Todas essas impressões criadas nas circunstâncias dos jantares familiares em Combray, durante a infância de Marcel, foram tais que “enchera[m] o invólucro corporal de nosso amigo que este Swann se tornara um ser completo e vivo, e eu tenho a impressão de deixar alguém para ir ter com outra pessoa diferente quando, em minha memória, retrocedo do Swann que mais tarde conheci deveras para este primeiro Swann – este primeiro Swann que descubro entre os encantadores equívocos de minha juventude e que aliás se parece menos com o outro do que com as pessoas a quem conheci na mesma época, como se em nossa vida sucedesse como em um museu, onde todos os retratos de um mesmo tempo tem um ar de família, uma mesma tonalidade” (idem, p. 40)

 

Imagens discrepantes/

 Suponhamos a existência de Proust, o escritor. Para tornar-se escritor ele deve primeiramente começar a escrever. Entretanto, ele não possui um talento prévio para a escrita, esse se constrói ao longo do próprio ato de escrever. Como nos ensina Blanchot, “ele apenas terá o talento após ter escrito, mas ele necessita dele para escrever” (BLANCHOT, 2010, p. 14, tradução minha). Superando essa contradição inicial/iniciática, Proust se cria como escritor ao momento que deixa de existir como pessoa, tornando real em sua ficção o nascimento o narrador de Em Busca do Tempo Perdido.

Esse movimento de destruição/assassinato da matéria real que serve de substrato para a literatura, e consequente renascimento de uma realidade ficcional, acontece não apenas com o próprio escritor, mas precisamente com tudo aquilo que vem a utilizar em sua ficção: as madalenas, tais como existem no mundo extra-ficcional, deixam de existir como tais, na obra, ao serem recriadas como disparadoras de memórias involuntárias.

Temos, assim, esse jogo duplo de assassinato de uma realidade precedente e sua recriação no campo da literatura. Nas palavras de Blanchot, “a negação não pode se realizar a não ser a partir da realidade daquilo que ela nega (…) a linguagem da literatura é a procura desse momento que a precede” (idem, p. 41, tradução minha).

Essa atividade inerente a toda literatura que toma o ato de escrever como questão em seu próprio corpo parece se desdobrar em outro nível em Proust, nisso que estamos chamando de imagens discrepantes: dentro do próprio campo de realidade criado pela ficção é um tema recorrente, e constitutivo da narrativa, o confronto entre as imagens formadoras do imaginário com a experiência sensível. Lemos assim, em Proust:

Quando via um objeto exterior, a consciência de que o estava vendo permanecia entre mim e ele, debruava-o de uma tênue orla espiritual que me impedia de jamais tocar diretamente sua matéria; esta como que se volatilazava antes que eu estabelecesse contato com ela, da mesma forma que um corpo incandescente, ao aproximar-se de um objeto molhado, não toca sua umidade, porque se faz sempre preceder de uma zona de evaporação” (PROUST, op. Cit. p. 117)

Talvez isso que estejamos chamando de discrepância entre a imagem criada e a percepção diante do encontro esteja na origem da polêmica entre Proust e Saint-Beuve. Este último parecia não estar particularmente atento às discrepâncias entre o eu profundo e o social. Proust se manifesta criticamente contra essa percepção, tornando essa problemática ponto central em sua narrativa, desdobrando-se em níveis diversos, dentro do espaço ficcional, atravessando concepções pessoais a respeito de outrem, relações de ordem mimética com obras de arte (como no caso de Boticelli ou da fotografia – a serem exploradas mais abaixo), diferentes temporalidades e imagem sonhada.

 

Un amour de Swann/

E é justamente sobre esse amor de Swann por Odette, que ocorre anteriormente ao nascimento de Marcel, e sobre o qual o narrador tem conhecimento absoluto (dos menores detalhes factuais aos mais intrigantes e contraditórios pensamentos que dominavam Swann quando de sua paixão-obsessão), que Proust tece as descrições e reflexões mais interessantes para aquilo que estamos, de maneira um tanto quanto arbitrária, chamando de teoria da imagem.

Swann conhece Odette, que lhe introduz no círculo de relações da família Verdurin. No início, Odette lhe é indiferente, e é significativo que Swann por ela se apaixone através de duas experiências que Antoine Campagnon, na apresentação crítica que faz ao livro na edição francesa de bolso, denomina de idolatria estética: a primeira relacionada a um trecho da sonata de Vinteuil, a segunda quando Swann associa sua imagem a um quadro de Botticelli.

O amor de Swann por Odette transforma-se em uma verdadeira paixão, e logo em obsessão, a partir do momento em que ele a identifica à imagem de Botticelli, preenchendo Odette de uma aura que até então lhe era estranha:

Colocou sobre a mesa de trabalho, como se fora uma fotografia de Odette, uma reprodução da filha de Jetró. Admirava os grandes olhos, o rosto delicado que deixava adivinhar a pele imperfeita, os cabelos maravilhosos ao longo das faces fatigadas, e adaptando aquilo que até então lhe parecia belo sob o ponto de vista estético à ideia de uma mulher de verdade, transformava-o em méritos físicos, que se regozijava de encontrar reunidos numa criatura a quem poderia possuir. Essa vaga simpatia que nos atrai para uma obra-prima que estamos contemplando, agora que conhecia o original de carne da filha de Jetró, se converteu em desejo, que supria o que a princípio não lhe inspirara o corpo de Odette. Depois de contemplar por muito tempo aquele Botticelli, pensava no seu Botticelli, que achava ainda mais belo, e, quando achegava a si a fotografia de Céfora, julgava que era Odette que estava apertando contra o coração” (idem, p. 280).

É a partir desse momento que nasce a paixão de Swann por Odette. E dela, uma obsessão que lhe preenche por inteiro, a ponto de não haver um momento de sua vida que não esteja voltado para ela, um espaço de seu corpo que não esteja tomado pelas contradições de sua obsessão.

Entretanto, a imagem que forjara de Odette, encoberta dessa aura que lhe era estranha, não correspondia ao sensivelmente experimentado por Swann. Daí o narrador nos falar em uma “necessidade insensata e dolorosa de possuí-la” (idem, p. 287)Seus desejos e sua paixão por Odette vinham sempre acompanhados de uma angústia, que não raro, se desdobrava em desconfianças, perturbações e desesperos:

Por certo que Swann não tinha consciência direta da extensão daquele amor (…) o seu amor estendia-se muito além das regiões do desejo físico. A própria pessoa de Odette não ocupava nele um lugar considerável. Quando dava com os olhos no retrato de Odette sobre a mesa, ou quando ia vê-la, tinha dificuldade em identificar a figura de carne ou de cartão com a dolorosa e constante perturbação que o habitava. Dizia-se quase com espanto: “É ela!” como se de súbito nos mostrassem exteriorizada ante os olhos uma de nossas doenças e não a achássemos semelhante ao que sofremos. “ela”, tentava Swann perguntar o que era” (idem, p. 373).

Odette, tal como criada por Swann, aparece mais como representação de algo que está “originalmente” e estruturalmente ausente do que como uma re-apresentação de uma pessoa/coisa no mundo. Estamos diante da ideia desenvolvida por Lacan, no Seminário XI, de que por detrás de cada representação há sempre mais representações, e da impossibilidade de encontrar o seu substrato de realidade. E, não obstante a incongruência de se buscar o “real”, a imagem criada gera efeitos reais, capazes de tomar e guiar toda a existência de uma pessoa:

E aquela doença que era o amor de Swann de tal modo se multiplicara, estava tão estreitamente ligada a todos os hábitos de Swann, a todos os seus atos, a seu pensamento, a sua saúde, a seu sono, a sua vida, até ao que ele desejava após a morte, era de tal sorte um só todo com ele, que não lho poderiam arrancar sem o destruir quase por completo: como se diz em cirurgia, o seu amor não era mais operável” (idem, p. 374).

 

A procura de Si/

Esse olhar para si, essa busca de si próprio, atravessa todo o romance. Podemos falar em uma pesquisa sobre si mesmo, uma arqueologia de sua própria história que, como toda a arqueologia, realiza determinadas presunções e inferências, e, portanto, cria uma ficção, a partir de certos indícios. De tal forma que ao criar uma imagem de si mesmo, através destes indícios, como se reconhecer nela? Ou então, como reconhecer essa imagem ficcional de si próprio nos indícios, nas histórias que lhes deram origem?

Daí a impossibilidade de se encontrar. Tal reflexão está nas origens do que se convenciona chamar de literatura ocidental: a viagem de Ulisses e sua volta à Ítaca são como uma procura por si mesmo enfrentando a consciência da impossibilidade de se encontrar, dado que a mudança no espaço e tempo constitui também uma mudança de si próprio. Blanchot nos diz que “a literatura, mostrando-se impotente a revelar, tornar-se-ia revelação daquilo que a revelação destrói” (BLANCHOT, 2010, p. 43, tradução minha). Talvez seja justamente essa a contradição, o esforço trágico no qual o narrador de Em Busca do Tempo Perdido se coloca.

Trata-se, assim, de uma tentativa do narrador de se encontrar (por exemplo, na reflexão que faz sobre os quartos que habitou), mas, sobretudo, de encontrar um lugar dentro de si mesmo, um lugar para si dentro da imagem que forjara de si próprio. No episódio do amor de Swann por Odette (vale lembrar que Swann é como um espelho do narrador durante todo o romance), lemos: “e na parca medida em que esse desprendimento não era absoluto, a razão desse prazer novo que experimentava Swann consistia em emigrar um momento para as raras partes de si mesmo ainda estranhas a seu amor e à sua pena” (idem, p. 375).

Essas partes de Swann alheias ao seu amor por Odette, ou, as partes do narrador alheias a própria imagem que criara de si próprio, não existem. Porém, apesar de sua inexistência, geram efeitos reais, concretos, em que a busca insaciável por esta imagem parece conseguir misturar o desejo de encontrá-la, quando distante, e a angustia ao não conseguir tocá-la, quando se queria próximo. Proust:

E me ajudavam a melhor compreender a contradição que existe em procurar na realidade os quadros da memória, aos quais faltaria sempre o encanto que lhes vem da própria memória e de não serem percebidos pelos sentidos. A realidade que eu conhecera não mais existia. Bastava que a Sra. Swann não chegasse exatamente igual e no mesmo momento que antes, para que a avenida fosse outra. Os lugares que conhecemos não pertencem tampouco ao mundo dos espaços, onde os situamos para maior facilidade. Não eram mais que uma delgada fatia no meio de impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de certa imagem não é senão saudades de certo instante; e as casas, os caminhos, as avenidas são fugitivos, infelizmente, como os anos” (idem, p. 507) .

 

Considerações finais/

Tentamos, ao longo do texto, realizar um esforço interpretativo para pensar o estatuto dissonante de certas imagens, a partir de trechos extraídos da obra de Proust. Quanto a essas imagens, oriundas pelo deslocamento temporal da memória ou espacial da distância, não cabe dizer se são reais ou fictícias. Dizem muito mais a respeito da pessoa que as criou, tornando-se reais na medida em que geram efeitos reais, a despeito sua existência prévia num plano real.

Antes de haver esgotado o assunto, o caminho percorrido mostrou-se relevante para aproximar essas reflexões oriundas de Em Busca do Tempo Perdido com algumas questões debatidas hoje, em teoria estética e história da arte, como, por exemplo, o duplo regime das imagens, como teorizado por Didi-Huberman, em Images malgré tout, a serem desenvolvidas em outros trabalhos.

 

Bibliografia/

BLANCHOT, Maurice. De Kafka à Kafka. Paris: Folio Poche, 2010.

PROUST, Marcel. No caminho de Swann. Tradução: Mário Quintana. São Paulo: Editora Globo, 2006.

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